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Crise climática isola comunidades e afeta saúde na Amazônia

Oficina pré-congresso do 10º CSHS/Abrasco debateu o impacto da crise climática na APS, a capilaridade dos serviços e os desafios da interculturalidade e da equidade no SUS

15.09.2026

Apresentação de Luísa Garnelo
Luiza Garnelo, pesquisadora da Fiocruz Amazônia

Eventos climáticos extremos afetaram 5,9 bilhões de pessoas e causaram 765 mil mortes no mundo entre 1993 e 2022, gerando custos diretos de US$ 4,2 trilhões. O impacto devastador dessa crise no SUS e a urgência de decolonizar a Atenção Primária à Saúde (APS) pautaram a oficina pré-congresso “Atenção Primária à Saúde, Territórios e Crise Climática: Interculturalidade, Vulnerabilidades e Respostas do Cuidado no Século XXI”, realizada nesta terça e quarta-feira (15 e 16/9) 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS) da Abrasco, em Manaus.

Na Amazônia, as emergências climáticas e fenômenos como o El Niño desorganizam diretamente a rede assistencial. Em 2024, a seca severa atingiu 69% dos municípios da região, isolando populações e interrompendo tratamentos contínuos de doenças como tuberculose e HIV, citou o professor Esron Rocha (UFAM). Com o recuo extremo do nível dos rios e o encalhe de embarcações, os insumos não chegam e os pacientes ficam impossibilitados de alcançar os postos, o que compromete gravemente a vigilância epidemiológica e a continuidade do cuidado.

A complexidade operacional dos 3.363 municípios rurais brasileiros — que cobrem 70% do território e abrigam 55 milhões de habitantes, dos quais 94,81% dependem exclusivamente do SUS — é marcada pelo baixo IDHM (abaixo de 0,65), renda per capita inferior à metade da média urbana e escassez crônica de médicos, com menos de um profissional por mil habitantes.

Na Amazônia rural, o atendimento organiza-se na tipologia “ruas, rios e ramais”: 55% da população vive nas sedes urbanas (~94,7 mil hab.), 25% em ilhas e comunidades ribeirinhas (~43,1 mil hab.) e 20% em áreas rurais acessadas por estradas (~34,5 mil hab.), segundo dados apresentados pelo pesquisador Lucas Cunha (Fiocruz Amazônia). Esse arranjo exige dinâmicas próprias de transporte, custos e fixação profissional, destacou.

A capilaridade da Enfermagem, presente em todos os municípios do país, é fundamental para a continuidade da assistência. A atuação em Unidades Básicas de Saúde Fluviais (UBSF) tem sido decisiva para contornar as distâncias e suprir deficiências estruturais como a falta de CAPS e de especialidades médicas. Em Abaetetuba (PA), a expansão da estratégia ribeirinha entre 2016 e 2025 elevou a cobertura da Saúde da Família nas ilhas de 10,6% para 82,8%, modelo também consolidado em municípios como Óbidos (PA), Manicoré (AM) e Afuá (PA).

Interculturalidade e aliança territorial

Carlos Leonardo Cunha, editor associado da Saúde em Debate
Carlos Leonardo Cunha, editor associado da Enfermagem em Foco

Além dos desafios logosticos, a oficina debateu as diretrizes para descolonizar a APS. As apresentações destacaram a necessidade de combater a tendência monopolista da biomedicina, a instrumentalização do cuidado e promover uma relação dialógica com as comunidades.

“Há uma tendência de pensar em sujeito e objeto de forma separada, nós versus eles. Mas nem toda epistemologia se constrói assim”, alerta Luiza Garnelo (Fiocruz Amazônia). “Os indígenas, por exemplo, entendem o ‘objeto’ como sujeito em interação. Não devemos ignorar a pluralidade dos sistemas médicos que estão dialogando”, afirma.

Para Luiza, é um erro presumir que a comunidade tradicional seja algo estanque. “Vemos que os jovens, por exemplo, têm menos interesse na dimensão ancestral do conhecimento, maior interesse em profissões com empregabilidade”, cita, reforçando a tendência de busca por atividades que concedam acesso direto ao mercado de trabalho formal em detrimento do aprendizado das práticas tradicionais de cura.

A condução e relatoria do espaço contaram com uma equipe integrada por Ana Luiza Vilasbôas (UFBA), Carlos Pilz (SAPS/MS), Darlisom Sousa Ferreira (UEA), Elisa Kemper (SAPS/MS), Esron Rocha (UFAM), Gabriela Formoso (SAPS/MS), Maira Scavazza (SAPS/MS), Marcia Guimarães de Mello Alves (UFF), Thiago Sarti (UFES) e Carlos Leonardo Cunha (UFMA), editor associado da revista Enfermagem em Foco.

Estratégias meramente institucionais não vão vencer a crise climática

Em debate após as apresentações, o professor da UFPA e consultor do Ministério da Saúde, Paulo Tarso, destacou a importância do protagonismo local no desenvolvimento de pesquisas e na formulação de respostas às emergências ambientais. “A produção feita na Amazônia é a maior produção sobre a Amazônia. Fico feliz de ver tantos pesquisadores e profissionais da Amazônia na mesa. Há uma tentativa Lançamos na COP uma iniciativa”, pontuou.

A gravidade dos eventos climáticos no território exige uma articulação que vá além dos fluxos governamentais convencionais. “Não venceremos o El Nino só com estratégias institucionais, sem se aliar aos movimentos sociais. Lá no Pará tem muita água, mas a água vai ficar salgada, com a queda da vazão de água e o mar adentrando os rios, como já acontece no Amapá”, alertou Paulo Tarso.

 

Fonte: Ascom/Cofen - Clara Fagundes

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