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“Violência contra mulher não é cultura, é crime”, afirmam indígenas participantes de workshop

1ª Tuma de Enfermagem Intercultural Indígena participou de palestra sobre Enfermagem Forense com o conselheiro Antônio Coutinho

09.06.2026

Graduandos de Enfermagem Intercultural Indígena

Graduandos da primeira turma de Enfermagem Intercultural Indígena da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) participaram na tarde de segunda-feira (8/6) de palestra sobre Enfermagem Forense, com o conselheiro Antônio Coutinho. Integrantes de 42 povos originários, os estudantes participam nesta semana (8 a 11/6), do II Workshop de Integração em Práticas Avançadas em Enfermagem, realizado no Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), com preceptorias no Hospital Sírio-Libanês e Sarah Kubitschek.

Coutinho apresentou aos estudantes, muitos dos quais já atuam como técnicos de Enfermagem ou agentes comunitários de Saúde em suas comunidades, o campo da Enfermagem Forense, destacando a centralidade do acolher e cuidar, seja na atenção primária, seja nos serviços especializados.

“Vocês já são especialistas nas suas comunidades, nas formas de cuidados tradicionais, e agora ampliam esse conhecimento muito além da média da população brasileira”, afirmou. “Dois verbos definem a Enfermagem: acolher e cuidar. É preciso ter um olhar atento para identificar casos prováveis de violência, respeitando a dignidade da vítima e sua privacidade”.

Coordenador da Câmara Técnica de Enfermagem Forense (CNEF/Cofen), Coutinho apresentou a atuação na coleta e preservação de vestígios físicos e biológicos de vítimas de violência. A apresentação suscitou debate entre os estudantes, que compartilharam desafios como o de manter a sigilo profissional em comunidade formandas por parentes e relataram, também, pressão para silenciar sobre episódios de violência doméstica.

“As mulheres muitas vezes têm receio de falar com alguém do mesmo sexo do agressor”, relatou Alessandro, do povo Bororo. “Muitas vezes o agressor é parente do profissional da unidade de Saúde”.

“Eu mesma vivi agressão psicológica, quando casei”, conta Cleonice. “Agora, o jogo virou”

Os futuros enfermeiros indígenas rejeitaram a relativização da violência contra a mulher. “Nossa cultura é a caça, a pesca, a dança, a música. Violência contra mulher não é cultura indígena. É crime”, afirmou Takak Txucarramãe, do povo Mẽbêngôkre, conhecidos como Kayapó.

Cleonice Nasi Irantxe, do povo Irantxe/Manoki, fez um relato enérgico contra a violência. “Vi muita agressão em casa, minha mãe sofreu muito e por isso largou os filhos, todos pequenos”, contou. “Como agente de Saúde, eu conheci muitos direitos e hoje oriento as mulheres. Eu mesma vivi agressão psicológica, quando casei”, conta. “Agora, o jogo virou”, afirma Cleonice, para quem as mulheres indígenas já estão em posição de poder igual, e às vezes maior, que os homens.

O curso de Enfermagem Indígena é um projeto pioneiro na América Latina, que forma profissionais indígenas para atuar tanto nas comunidades tradicionais quanto nas demais unidades de saúde. A iniciativa tem apoio do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). “Entendemos a importância dessa formação e o impacto que cada um de vocês terá em suas comunidades”, afirmou o presidente do Cofen, Manoel Neri.

“O projeto foi construído a partir das demandas das próprias etnias, que lutaram para garantir uma formação técnica de excelência, sem abrir mão de sua identidade cultural”, explica Ana Cláudia Trettel, coordenadora do curso. São 49 alunos matriculados no curso, ofertado na Faculdade Indígena Intercultural – campus de Barra do Bugres -, da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat).

O coordenador da Câmara Técnica de Enfermagem em Atenção à Saúde dos Povos Originários (CTEASP/Cofen), João Batista Lima, parabenizou os estudantes e ressaltou o impacto da formação na Saúde Indígena. “Muitas vezes o profissional de Enfermagem chega de paraquedas e há um conflito muito grande por causa da cultura. O profissional precisa entender que dentro daquela comunidade tem uma forma de fazer saúde”, afirmou.

Fonte: Ascom/Cofen - Clara Fagundes

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